A I-15 te leva até a fronteira. E lá estava o controle de imigração e passaporte para entrar no Canadá. Se eu tivesse na memória a primeira vez que entrei por terra num país, evitaria isso ao máximo. Foi no México, em 2003, quando fui de San Diego para Tijuana. Na ida, ninguém te pergunta nada, ou melhor, não tem controle nenhum. Mas na volta… 4 horas em pé no sol na fila. Loucura total. Pra nunca mais voltar.

Pois bem, aqui foi o oposto. Dos 6 postos de atendimento, apenas um funcionava, e só tinha um carro na nossa frente. Quando chegou a nossa vez, só perguntaram de onde viemos e quantos dias vamos ficar no país. Não tem nem formulário pra preencher, como é nos aeroportos. E também não revistaram o carro. Foi a sorte. Se fossem abrir mala por mala, acho que ficaríamos ali no mínimo 1 hora… Vamos ver como vai ser a volta…

O lado canadense é o oposto do americano, e comecei a me sentir em casa: as placas mostram quantos quilômetros faltam, e não mais milhas. As temperaturas são em graus Celsius, e não Farenheint. As cidades à beira de estrada têm uma ótima infraestrutura, e não mais meia dúzia de gatos pingados. Se bem que dá pra entender o porquê. Nos Estados Unidos, ali é o máximo do frio que se podia chegar naquela área, enquanto no Canadá, é o máximo do calor. Basta lembrar que quando mais ao sul no hemisfério norte, mais quente é o clima.

Calgary, nosso destino, fica a 3 horas da fronteira, e a viagem terminou muito bem, graças a Deus. Por incrível que pareça, aqui está menos frio que nos EUA, e não há neve. Já estamos na casa da mãe do Gordon e agora, finalmente, é hora de descansar.

Com o dia claro pude ver como Salt Lake City é linda. Há uma cadeia de montanhas cobertas de neve ao longo de toda a cidade, formando um dos cenários mais bonitos que já vi. São as famosas Montanhas Rochosas, que a gente estuda no colégio. Elas também estão presente na paisagem do resto do estado de Utah, além de Idaho e Montana, e nos acompanharam no dia todo de viagem.

Visual de cinema em Salt Lake City

Em Utah, vimos algumas igrejas mórmons, mas foi só isso. Dali por diante a natureza foi um espetáculo. Eu achava que ia ser o grande problema, com risco de tempestades de neve, mas não. O dia foi de céu azul clarinho, com temperatura perto de zero grau.

A estrada é praticamente uma reta até o Canadá. Em Idaho, as fazendas estão dos dois lados da rodovia – enormes, com gado e plantações. Já Montana é outra história.

Montana é o lugar com menos habitantes por metro quadrado que já vi. Eu ia seguindo no mapa o nome das cidades, pra saber onde a gente estava, e esta viagem redefiniu meu conceito de cidade pequena. Eu nasci em Três Rios, no interior do Rio, e achava que lá era uma cidade pequena. 3 Rios, com 75 mil habitantes, é uma metrópole perto dos povoados que vi hoje. Eles não merecem o nome de cidade. Há lugares em que, sem brincadeira, deve haver menos de 50 casas. Passamos inclusive pela capital do estado, Helena, e acho que 3 Rios põe Helena no bolso.

Olha a Melrose de Montana!

Que tal trocar a Melrose da Califórnia pela de Montana?
Essa aí é Melrose. Alguma semelhança com a prima da Califórnia?

A estrada também tem umas coisas engraçadas. Muitas cidades só têm casas e mais nada. Então, nas placas, embaixo dos nomes delas vem escrito “no services”, significando “nem entra porque aqui não tem banco, restaurante, orelhão nem posto de gasolina”.

Este até foi um susto pra gente. A gasolina estava acabando e não tinha onde abastecer!!!! Por fim encontramos um lugarzinho, que tinha até Mc Donald’s.

Outra coisa: Vocês já viram uma rodovia sem retornos? Mais um motivo pra conhecer Montana. A estrada é ótima, toda duplicada, mas você só pode ir, voltar não dá. Brincadeira. Mas que é mais difícil que em outras estradas, isso é. E você pode levar uma multa. As únicas conexões entre as duas pistas (uma espécie de retorno) só podem ser usadas por policiais ou veículos autorizados. Então, o jeito é esperar ter uma cidade do outro lado pra poder atravessar… Vai entender…

Mas uma coisa em Montana foi bem interessante descobrir. A estrada que passamos, a I-15, fica na divisa geográfica do continente. Todos os rios que nascem à direita dela correm para o Atlântico, e todos à esquerda desembocam no Pacífico. Um fato que, se eu não cruzasse o estado, nunca talvez nem viria a descobrir que existia.

Não foi gato por lebre, já que apesar de o retorno não ser o esperado, também foi surpreendente.

Saindo do Grand Canyon, o Gordon lembrou que uma vez, passando por ali com amigos, eles sem querer descobriram uma cratera feita por um meteorito que se chocou com a Terra. Parece história pra boi dormir, mas ele jurou que esteve lá. Bem, estando tão próximo de um lugar assim, não tinha como deixar passar em branco. E fomos atrás.

Saímos da nossa rota original, que seria voltando para Las Vegas, e fomos para a histórica e famosa Rota 66. Não tem nada demais nela, é uma estrada como qualquer outra. A diferença é que a publicidade continua intensa. Há placas de Rota 66 por todo o caminho e, ao parar num posto de gasolina, foi impressionante ver a quantidade de souvenirs, livros e tudo o mais sobre a rota à venda. Os americanos sabem mesmo ganhar dinheiro. E o pior que pelo menos com 10 dólares meus eles ficaram…

A famosa Rota 66, no Arizona
Desculpem pela qualidade da foto… É que tirei com o celular de dentro do carro quando paramos no sinal, e não dava tempo de pegar a máquina…

Logo assim que deixamos a rota, surgiram placas da tal cratera. Encontramos e caminho e fomos adiante. Mas nada de ver o buraco em si. Lá descobrimos que não se trata de um meteorito, e sim de um vulcão que explodiu no século 12, e as lavas continuam lá. É incrível. Todo esse tempo e a cena de destruição continua a mesma. Nada que os homens possam fazer. Aquilo foi obra da natureza, e se o homem quiser tentar consertar, vai acabar destruindo a natureza que nasceu por cima. O vulcão também estava logo ali, adormecido.

Vulcão adormecido

Muito interessante aquela imagem. Uma pena que não vi cratera alguma. O Gordon disse que na época, não teve que sair do carro pra chegar à parte mais alta, o que para a gente hoje era impossível. Além de estar quase zero grau, a tarde estava caindo, o que não daria uma boa imagem. E além do mais tinha a caminhada de 300m morro acima.

Chegamos à conclusão de que se tratam de 2 lugares diferentes, já que quando ele foi não viu lava nenhuma, e a lava está por toda a parte. Mas bem que eu queria ter visto também a cratera…

6 horas da manhã de pé, pronta para conhecer o Grand Canyon. Pelas informações que pegamos, o caminho até lá seria de 2 horas. Ótimo. O frio continuava o mesmo. Tive até que improvisar roupas para a gravação (é claro que eu troxe roupas de frio, mas estavam por baixo de tudo, na mala que ficou no carro).

Passamos pela Hoover Dam, a represa monstruosa que faz com que Las Vegas seja Las Vegas. Sem ela, não haveria energia nem pra 1/3 do que é consumido na região. O lugar é muito bonito, e a estrada passa exatamente por cima. E por causa da importância da represa, os EUA estão com medo de ataque terrorista. Então todo carro é parado pelos policiais.

Continuando. Quando chegamos na reta final para a reserva indígena que era o nosso objetivo, a estrada era de chão. Muuuuuuito ruim. O carro tremia todo, o que podia e o que não podia. O Gordon xingava até a última geração. Ele reclamou tanto, mas tanto, que se tornou engraçado e a gente não parava de rir. O trajeto acabou sendo feito em 3 horas…

Mas tanta tremedeira e bateção de queixo valeu a pena.

A matéria em questão é sobre uma passarela de vidro no Grand Canyon. Vocês já devem ter visto imagens na televisão, mas ela só foi aberta mesmo para o público hoje. Nossa, andar naquele chão vendo aquele penhasco lá embaixo chega a dar medo. Muita gente só ficava nos cantos, que são de um outro material. Pelo vidro só iam os mais corajosos…

Passarela de vidro no Grand Canyon

Passarela de vidro no Grand Canyon

Eu achava que pra ir ao Grand Canyon era preciso subir uma serra, mas não. Não tem subida nenhuma. Você chega e ele tá lá. Ma-ra-vi-lho-so. As formações lembram um pouco a Chapada Diamantina. Parece na verdade que são várias chapadas (onde o normal é estar em cima) com um abismo no meio. Deu pra perceber que foi a primeira vez que fui lá, né? Foi a primeira vez tb que o Gordon foi nesta área. Há vários locais de observação ao longo da cadeia de montanhas, mas esse é o único que pertence a índios – a tribo Hualapai. Eles estão enfrentando desemprego e vários outros problemas, então decidiram investir no turismo. São eles que organizaram a construção e agora administram a passarela!!!

Por mim, eu voltaria em breve, com mais tempo. Mas pelo Gordon, enquanto ele lembrar que os ingressos de turistas saem a 75 dólares no total cada e que a estrada quase destrói o carro por 40 minutos, acho que ele vai preferir visitar outro ponto do Grand Canyon que seja mais conveniente. É numa hora dessas que adoro ser jornalista.

Quando eu estava saindo de casa, em Los Angeles, na última hora voltei pra pegar umas roupas de calor. Afinal, as primeiras paradas seriam em pleno deserto – Las Vegas e Arizona. Foi o tempo que perdi.

Nunca imaginei que aqui pudesse fazer tanto frio!!! Indo pra Las Vegas, nós estávamos com o carro todo fechado, portanto numa temperatura muito agradável. Aí começamos a ver aquela cena de deserto: uma ventania, areia voando de um lado para o outro na pista. Tinha tanta areia no ar que não dava pra ver os morros logo ao lado. Mais tarde descobrimos que os ventos eram de 20 a 30 milhas por hora (32-48 km/h), e atingiram 50 mi/h (80 km/h) em alguns lugares.

Foi então que por acaso vimos a temperatura: 39F, o que dá pouco menos de 4 graus!!!!!!! Freeeeezing!

Ghost Town Road - Peculiaridades do deserto

Zzyzx Road - Como se lê isso?????
Algumas placas engraçadas no caminho. Na foto 1, a entrada para a Estrada da Cidade Fantasma e na foto 2 a Estrada Zzyzx. A propósito, como se lê isso?????

Chegando em Las Vegas, pela primeira vez decidimos ficar num hotel no Centro da cidade, que foi todo revitalizado há algum tempo. A gente sempre ficava nos hotéis da Strip, aquela rua famosa. Mas como dessa vez seria só uma noite, por que não experimentar? Olha, e foi uma surpresa. O hotel ficava de frente para o point. Uma rua de pedestres cheia de bares, com shows de meia em meia hora. Tinha um teto coberto, e toda vez que o grupo cantava, várias imagens eram projetadas. Superlegal!!!!! Um show de cores e formas muito bacana.

Centro de Las Vegas revitalizado

Hoje saímos cedíssimo do hotel rumo à matéria. Nem deu pra aproveitar nada na lista de descontos… Em Las Vegas, todos os hotéis dão vários bilhetes de descontos no cassino, nos bares e algumas lojas e restaurantes. Deixei tudo no quarto pra arrumadeira.

Hoje é um dia muito especial. Estou começando um projeto que vai me ocupar pelas próximas 3 semanas, e que com certeza vai ser muito marcante. Estou saindo de Los Angeles de carro, numa viagem até o Canadá. Vou cruzar toda a costa oeste, passando por 8 os estados americanos e 2 províncias canadenses. Na ida, Califórnia, Nevada, Arizona, Utah, Idaho e Montana, onde cruzo a fronteira para chegar em Alberta. Fico lá uns 10 dias e depois vou para British Columbia, reentrando nos Estados Unidos por Washington e passando pelo Oregon no caminho de volta até chegar ao ponto de partida.

Nem sei quantos quilômetros deve dar. Mas estou ansiosa para conhecer tantos lugares de uma só vez. Eu nunca fiz uma viagem de carro assim, e imagino que deve ser uma oportunidade única.

Trajeto de viagem
Mapa de viagem. O trajeto de ida é por esta estrada vermelha.

Bem, mas vendo o mapa dos Estados Unidos você pode perguntar: o que vou fazer no Arizona, se estou indo para o norte? É que neste meio tempo, também vou fazer matérias para o SBT. Uma delas é no Grand Canyon, amanhã, na inauguração para o público de uma passarela de vidro a mais de 1200 metros de altura. Imagina ver o despenhadeiro lá embaixo!!??? Depois conto como foi.

Pois é… agora estou indo para Las Vegas, onde vou passar a noite. Eu amo Las Vegas. É um lugar tão quente, mas tão quente, que não dá nem pra ir à piscina, porque costuma não haver guarda-sóis. Então pra ficar lá torrando não dá. Mas é um lugar de fantasia. É a Disney dos adultos.

Começo a cruzar o deserto entre a Califórnia e Nevada. Essa parte eu já conheço. Por quilômetros não se vê nada, mas a vontade de ver mundos diferentes continua a nos guiar. E o melhor é saber que a aventura está só no início.

Se eu disser que os bancos no Brasil são mais adiantados tecnologicamente que nos Estados Unidos dá pra acreditar? Parece mentira, mas é verdade. Não é a primeira vez que me surpreendo com o serviço, mas a cada dia a coisa está se superando.

Hoje fui fazer uma transferência. Pela Internet está fora de cogitação porque não é eletrônico. Quando você aperta o “concluir”, em vez de o dinheiro aparecer na conta da outra pessoa, o banco envia pelo correio um cheque, para que depois a pessoa faça o depósito!!! (???) Como eu já tinha passado por essa loucura antes (o dinheiro nunca entrava na minha conta, até que descobri que o cheque estava me esperando na caixa do correio e eu estava viajando…), resolvi não arriscar.

Na agência, preenchi o formulário de transferência e entreguei ao caixa. Ele me pergunta se as duas contas são minhas. Eu digo que não e ele me olha com a cara mais lógica do mundo:

_ Como não? Então você não pode fazer a transferência!
_ Como assim não posso?
_ Você tem que retirar o dinheiro da sua conta e depositar na outra.
_ Ãh??????????

E assim foi feito. Ah, e o depósito só pode ser feito dentro do banco, porque no Caixa Eletrônico não tem esta opção… Você não pode fazer um depósito para uma outra pessoa. (!!!!!!!)

Isso tudo aconteceu no Washington Mutual. Se alguém souber de um banco mais eficiente, por favor faça contato. Por outro lado, esta conta corrente é gratuita, não tem taxas mensais. Isso mesmo. Tenho duas contas de graça, que o banco mantém por pura “dedicação aos clientes”… Pois é… acho nem tudo está perdido.

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